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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Queimada por ex, mulher cria instituto contra violência doméstica e tem terceira filha: 'Vida nova'



Aos 23 anos, Barbara Penna é uma sobrevivente. Em novembro de 2013, ela foi agredida, queimada e jogada da janela do apartamento pelo ex-namorado. No incêndio, morreram os dois filhos dela, Isadora, de 2 anos, e João Henrique, de apenas 3 meses. Um vizinho que tentou socorrê-la também não resistiu após ser asfixiado com a fumaça.


Mais de três anos depois, o sofrimento pelo que passou a motivou a idealizar o Instituto Barbara Penna, que tem como foco a luta contra a violência doméstica. Após conhecer o atual companheiro – um "homem bom", como faz questão de ressaltar –, deu à luz a terceira filha, Luisa, hoje com um ano e sete meses.



"Ela me trouxe uma vida nova, e muitos desafios junto, mas não tem como não olhar para aquele rostinho e não ter forças. Ela me passa uma força sem limites."


Na tarde desta quarta-feira (26), Luisa corria e brincava pelo pavilhão do Centro de Eventos da Fiergs, na Zona Norte de Porto Alegre, enquanto a mãe palestrava em um seminário da Patrulha Maria da Penha, iniciativa da Brigada Militar para combater a violência doméstica. O depoimento de Barbara emocionou policiais.

"Muitas pessoas lutam pela causa. O grande diferencial é quando você vê que uma pessoa não está lendo uma ficção ou vendo um índice, mas falando sobre o que passou. É muito importante existir relatos para conscientizar e chocar", destacou, após a participação no seminário.




“Hoje eu luto para que outras Barbaras não surjam. Acredito que toda vítima real acaba servindo como alerta. Não queremos que surjam mais vítimas, mas desejamos que as que infelizmente já viveram essa realidade, tenham coragem de contar seus relatos, para motivar a população a saber identificar relacionamentos doentes”, explica.


O agressor de Barbara é João Guatimozin Moojen Neto, de 27 anos, que hoje está preso. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por três homicídios dolosos (quando se assume o risco de matar) triplamente qualificados, uma tentativa de homicídio e pelo fato de ter provocado o fogo no apartamento.


Em maio do ano passado, o juiz da 2ª Vara do Júri do Foro Central da capital, Felipe Keunecke de Oliveira, decidiu que o réu irá a júri. No entanto, ainda não há data para o julgamento.


Barbara teme que ele obtenha a liberdade. "Se ele matou os filhos, não tem nada a perder, então pode vir atrás de mim", cogita.




A agressão




O relacionamento de Barbara e João culminou no trágico fim após quase três anos. Os dois se conheceram pela internet e tornaram-se amigos. Em menos de dois meses assumiram relacionamento. Logo, ele começou a demonstrar um ciúme obsessivo, demonstrado com pequenas agressões, como mordidas e beliscões.


Na noite do crime, o casal discutiu, mais uma vez, no apartamento em que ele morava, em um condomínio situado na Avenida Panamericana, na Zona Norte. Na tentativa de não prolongar mais a briga, Barbara resolveu dormir, logo após colocar os dois filhos na cama.


Do sono, foi acordada com socos. Desmaiou com as pancadas e só despertou com o forte cheiro de álcool. O líquido havia sido despejado pelo seu corpo e pelo chão da casa. Em seguida, João riscou um fósforo.


Segundo a denúncia do Ministério Público, João lançou a namorada pela janela do terceiro andar. Ela nem chegou a ver que o fogo se espalhou pelo apartamento e a fumaça provocada pelo incêndio intoxicou e matou as duas crianças que dormiam no quarto, e um vizinho.


Mario Ênio Pagliarini, de 76 anos, era morador do sexto andar do prédio. Ele percebeu o fogo e desceu as escadas para ajudar. Não resistiu e morreu no corredor, também sufocado pela fumaça.


Além do luto pela morte dos dois filhos, já foram mais de 200 cirurgias. O fogo atingiu 40% do lado direito do corpo de Barbara. O braço e a perna ficaram comprometidos. A orelha derreteu e a retina do olho foi queimada, o que exige um transplante de córnea. A queda da janela do terceiro andar provocou ainda lesões graves na bacia e no fêmur.


João também era usuário de drogas. A defesa alega que ele tem histórico de "drogadição desde novo e surtos de paranoia e esquizofrenia", e contesta um laudo do Instituto Psiquiátrico Forense (IPF) que atestou sanidade mental. Ele foi internado duas vezes em instituições para dependentes químicos, mas nunca por tempo prolongado.

PORTO ALEGRE

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